jueves, 25 de mayo de 2017

1989 - O ESTRANGEIRO



"Arto Lindsay tinha me proposto produzir um disco meu, junto com Peter Scherer, seu parceiro nos Ambitious Lovers. Mas eu já tinha engatilhada a produção do disco Caetano com Guto Graca Mello. Bob Hurvitz, do selo americano Nonesuch, que já tinha feito um disco meu em Nova York (um que leva meu nome, foi gravado em dois dias e tem faixas só com o violão ou com um pequeno grupo armado entre os músicos que me acompanhavam no show Uns), queria fazer um outro disco comigo lá. Eu botei os dois em contato. Daí nasceu Estrangeiro. É um disco de que muita gente fala bem. Eu gosto. Acho que pensei o titulo do disco e daí pensei em escrever a canção. Sempre soube que no título do disco o artigo definido não apareceria, mas no da cancão, sim. É uma letra bonita. “Ara/ela”—“aro/elo”, são um par de rimas interessante. E a lembrança de Dylan no final tem muita graça." 

[Caetano Veloso, Sobre as letras, Editora Schwarcz, São Paulo, 2003. Página 55]





Música y letra: Caetano Veloso 
© 1989


O pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
A Baía de Guanabara
O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara 
Pareceu-lhe uma boca banguela
E eu, menos a conhecera, mais a amara?
Sou cego de tanto vê-la, de tanto tê-la estrela
O que é uma coisa bela?
O amor é cego
Ray Charles é cego
Stevie Wonder é cego
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem
Uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?
Uma arara?
Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara
Em que se passara passa passará o raro pesadelo
Que aqui começo a construir sempre buscando o belo e o Amaro
Eu não sonhei:
A praia de Botafogo era uma esteira rolante de areia branca e óleo
diesel
Sob meus tênis
E o Pão de Açúcar menos óbvio possível
À minha frente
Um Pão de Açúcar com umas arestas insuspeitadas
À áspera luz laranja contra o quase não luz, quase não púrpura
Do branco das areias e das espumas
Que era tudo quanto havia então de aurora
Estão às minhas costas um velho com cabelo nas narinas
E uma menina ainda adolescente e muito linda
Não olho pra trás mas sei de tudo
Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo
Mas eu não desejo ver o terno negro do velho
Nem os dentes quase-não-púrpura da menina
(Pense Seurat e pense impressionista
Essa coisa de luz nos brancos dente e onda
Mas não pense surrealista que é outra onda)
E ouço as vozes
Os dois me dizem
Num duplo som
Como que sampleados num Sinclavier:
"É chegada a hora da reeducação de alguém
Do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém
O certo é louco tomar eletrochoque
O certo é saber que o certo é certo
O macho adulto branco sempre no comando
E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
Riscar os índios, nada esperar dos pretos"
E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contra o vento
E entendo o centro do que estão dizendo
Aquele cara e aquela:
É um desmascaro
Singelo grito:
"O rei está nu"
Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é‚ mais
bonito nu
E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo
E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo.

("Some may like a soft brazilian singer
But I've given up all attempts at perfection")






 

 




1989 - CAETANO VELOSO
6362 7914 / 6:14
Álbum "Estrangeiro"
Philips LP 838.297-1, A-1.
CD 838 297-2, Track 1.


1995 – CÉLIA PORTO
Álbum “Célia Porto”
Ponte Studio Gravações Ltda. CD, Track 12.


 
2000 – CAETANO VELOSO
/ 4:32
Álbum “Cole Porter e George Gershwin – Canções, Versões” [Varios intérpretes]
[Cita: O Estrangeiro (Caetano Veloso) en “Que De Lindo!” [It’s De-Lovely] (Cole Porter) Versión: Carlos Rennó]
Geléia Geral/Wea CD 398429049-2, Track 2.

 
2002 - BEN ONONO
[Badagry Beach (Ben Onono/Caetano Veloso)]
/ 7:46
Álbum “Badagry Beach”
Ibadan Records 1 sided 12” nº IRC 048 [EE. UU.], Side A [Limited Promo Only]

2002 - BEN ONONO
[Badagry Beach (Ben Onono/Caetano Veloso)]
Album "Ibadan People" Music Sophisticated Dance [Varios intérpretes]
Ibadan Records 2 CD’s IRC 054, CD 1, Track 1.[EE. UU.]



2011 - LUCIANO MELLO
 / 6:26
Álbum “TrêsCaetanos”
Gravações Eletrodomésticas / A Vapor Estúdio CD Single RN-14, Track 1.
 






2017 – MARIA ALCINA
Álbum “Maria Alcina – Espírito de tudo”
Músicas de Caetano Veloso
Nova Estação/Eldorado CD 7897181700361, Track 9.






03/11/09
'Lévi-Strauss me levou a pensar muitas coisas sobre o país', diz Caetano Veloso

Compositor cita o antropólogo na letra de 'O estrangeiro'.
Música revela as impressões do francês sobre a Baía da Guanabara.

Paulo Guilherme
Do G1, em São Paulo


 Caetano Veloso lançou a música 'O estrangeiro' em 1989 (Foto: Divulgação)

Caetano Veloso citou uma observação do antropólogo Claude Lévi-Strauss em um dos primeiros versos da música “O estrangeiro”, faixa de abertura do álbum de mesmo nome lançado pelo cantor em 1989. “O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara/Pareceu-lhe uma boca banguela”, dizia a letra, que de certa forma contribuiu para divulgar ainda mais a obra do francês e sua relação com o Brasil. Em entrevista por e-mail ao G1, Caetano Veloso conta a história da música e de sua admiração pela obra de Lévi-Strauss, que teve sua morte anunciada nesta terça-feira (3/11):


Foto do antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908/2009), tirada em 2005
Foto: Pascal Pavani/AFP

G1 - O que te levou a incluir a citação a Lévi-Strauss na letra da música “O estrangeiro”?
Caetano - A vontade de abrir a canção citando olhares estrangeiros sobre a Baía de Guanabara: tinha a declaração de Gauguin, a de Cole Porter (ambas elogiosas) e eu quis juntar a de Lévi-Strauss, depreciativa.

G1 - De onde você buscou esta referência?
Caetano - Do livro "Tristes Trópicos". Nesse livro maravilhoso, Lévi-Strauss pede desculpas por discordar de todos que acham o Rio bonito e declara que, para ele, a cidade não tem nenhum encanto e as proporções entre a baía e as rochas que a circundam (Pão de Açúcar, Corcovado, Urca e pedras menores) dão a impressão de uma boca desdentada: os promontórios seriam muito pequenos para o tamanho da baía.

G1- Você teve algum contato maior com os estudos de Lévi-Strauss?
Caetano - Li "Tristes Trópicos" em 1967. Fiquei surpreso e maravilhado. Eu era fã de Sartre: nunca esperei encontrar algo tão diferente dele e tão inteligente, revelador. Depois li "O pensamento selvagem", "O cru e o cozido" e "Race et Histoire"- além da longa entrevista com Didier Éribon e trechos de outros livros (inclusive um sobre pintura). Lévi Strauss era um grande escritor e, como todos sabem, um antropólogo que influenciou muita gente, dentro e fora da antropologia. Seu nome está ligado à invenção do chamado "estruturalismo". A filosofia, as ciências humanas em geral e a política sofreram importantíssima influência de sua personalidade intelectual. Leio essas coisas por gosto, sem método.

G1 – Você chegou a conhecer o antropólogo pessoalmente?
Caetano - Nunca vi Lévi-Strauss pessoalmente. Sei que ele soube (por alguns segundos) que um compositor brasileiro tinha citado a frase dele. Ele apenas minimizou o aspecto negativo da observação, dizendo que tinha escrito aquilo fazia muito tempo.

G1 – Para você, qual foi a importância de Lévi-Strauss na concepção de Brasil?
Caetano
- Na verdade, para mim foi muito grande. Ler "Tristes Trópicos" me levou a pensar muitas coisas sobre nosso país de um modo que não seria possível antes. O trecho sobre a USP é muito comovente e ainda instiga. Ainda hoje, no livro "Saudades do Brasil", a ideia de que os vasos marajoara são vestígios de uma grande civilização amazônica de onde teria saído a grande cultura andina (e não o caminho inverso) joga uma luz diferente sobre a maneira de sentirmos o significado de nossa terra.




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