sábado, 4 de marzo de 2017

2008 - 50 anos do Caderno ILUSTRADA - Folha de S. Paulo


Debate no Masp comemora os 50 anos do caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo.


Programação:
8/12 – Cultura e Política
Cacá Diegues, cineasta
Caetano Veloso, compositor
Maria Rita Kehl, psicanalista
Ferreira Gullar, poeta
Mediação de Fernando de Barros e Silva, editor do caderno Brasil da Folha
 

A primeira mesa teve a participação do cineasta Cacá Diegues, do compositor Caetano Veloso, da psicanalista Maria Rita Kehl e do poeta Ferreira Gullar, que escreve aos domingos na Ilustrada.


Convidados no camarim antes de seminario dos 50 anos do caderno Ilustrada
Fotos: Tuca Vieira/Folha Imagem




FOLHA DE S.PAULO

8/12/2008 

Caetano arranca risos da platéia em debate da Ilustrada

O compositor Caetano Veloso tirou risos da platéia do primeiro debate dos 50 anos da Ilustrada ao buscar as palavras para iniciar sua intervenção.
Caetano disse que havia organizado sua apresentação, mas esqueceu o livro no qual tinha feito anotações. Seus silêncios e bom humor divertiram o público. Ele usou trechos de seu livro "Verdade Tropical" para iniciar a intervenção.
"Isso é uma comédia inacreditável e depois não é tão importante assim o que está escrito", afirmou o compositor.
Uma pessoa da platéia emprestou um exemplar ao cantor e compositor. Caetano ainda "reclamou".
"O dono desse exemplar fez outras marcações", afirmou Caetano.
Quando finalmente começou sua intervenção, Caetano leu um trecho no qual falava de bossa nova, cinema novo, e outros fatos contemporâneos ao caderno.
"Havia muita explicitude política em letras da tropicália", afirmou Caetano, ainda discorrendo sobre o fluxo do ambiente cultural que acompanhou o período discutido durante sua leitura.
O artista ainda ressaltou que as letras não possuíam o nacionalismo característico dos movimentos de esquerda, e eram bastante influenciadas pelas guitarras do rock.
Caetano criticou a esquerda "uspiana" durante a leitura, apesar de dizer que elogiar a PUC não significa se contrapor à inteligentsia da USP.
"Lula só me decepcionaria se quisesse permanecer no poder", terminou Caetano pedindo desculpas pela maneira desorganizada que leu sua intervenção.
 


 

 


 
 




São Paulo, quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
 




Ilustrada 50 anos

Função da arte não é fazer política, diz Gullar

Poeta revê posições dos anos 60 e Caetano diz que "Cronicamente Inviável" é "abacaxi"

O peso do mercado na vida cultural, encerrado o período da ditadura militar e o ciclo das utopias de esquerda, esteve no centro do debate "Cultura e Política", que aconteceu anteontem à noite, no auditório do Masp. Mediado pelo jornalista Fernando de Barros e Silva, editor de Brasil, o debate, primeiro de uma série de três, faz parte das comemorações dos 50 anos da Ilustrada. A psicanalista Maria Rita Kehl destacou que o mercado passou a pautar opiniões sobre a produção cultural numa lógica segundo a qual "as coisas têm valor porque se vendem".
O compositor Caetano Veloso, que começou o debate tentando lembrar, em vão, um trecho de seu livro "Verdade Tropical", foi em sentido contrário: "A gente, que trabalha nessas criações mais vendáveis, enfrenta uma perversão oposta: há uma idéia de que uma coisa não é boa porque vende". O poeta e colunista da Folha Ferreira Gullar, que arrancou risos da platéia, disse que as relações entre arte e política, como aconteceram nos anos 60, já não fazem o mesmo sentido. Já o cineasta Cacá Diegues, ao destacar o papel da tecnologia, afirmou que a pirataria não é um problema de polícia.

DA REPORTAGEM LOCAL

POLÍTICA E MERCADO (MARIA RITA)
Nos anos 80, com velocidade espantosa, o Brasil fez uma passagem da frase do [oficial nazista Hermann] Goehring ("Quando ouço falar em cultura, eu puxo um revólver", que vigorou por aqui por 20 anos) para a frase do magnata americano parodiada por Michel Piccoli no filme ["Desprezo"] do Godard ("Quando ouço falar em cultura, puxo meu talão de cheque"). O Brasil entrou na era do mercado. Na época, a Ilustrada abraçou com alegria a relação entre a cultura e o talão de cheque. O mercado resolveria o problema da cultura.
A lógica de mercado aplicada à cultura vai criando uma reversão: começamos com a idéia de que as coisas se vendem porque têm valor e, após algum tempo, passamos a acreditar que elas têm valor porque se vendem.

MERCADO E CRÍTICA (CAETANO)
Acho que a crítica do mercado, que é muito inspirada naquela posição dos frankfurtianos, sobretudo em Adorno, no fim das contas é inautêntica. Muitos jornalistas que citam Adorno, e contra a indústria cultural, se tornam criaturas pop na própria imprensa. E fica uma contradição: você fica esperando dali uma produção de grande arte, de arte fina, e não sai nada.
Às vezes, você vai ouvir a banda Calypso e, além de estar revolucionando o modelo de distribuição, o modelo industrial e comercial da música popular, eles podem apresentar uma solução tanto de espetáculo quanto de composição e canto que atende a um interesse maior do que uma pretensão como essa. O Paulo Francis, por exemplo, era um cara pop que escreveu péssimos romances.

POLÍTICA X ARTE (GULLAR)

Eu aprendi, errei, fui dos que mais erraram, fui sectário numa porção de coisas. À certa altura, comecei a ver que podia fazer poesia política com uma qualidade igual a de outro qualquer. Bastava não me contentar em ficar fazendo denúncia.
Tinha de refletir mais fundo nas questões [...]. Hoje a visão que tenho é que uma obra de arte já tem função social, independentemente do conteúdo político. A função da arte é ajudar a inventar o mundo, a vida.
A arte existe pois a vida é pouca.
E essa função é satisfatória.

POLÍTICA E MÚSICA (CAETANO)

A política possível de se detectar na produção e na apreciação de música, e de criação artística, em geral, não está onde a princípio a buscamos, mas nunca está realmente ausente.
Procuro auscultar a política do surgimento de modos de produção de música popular que vieram no rastro da reprodutibilidade digital e da difusão via internet: tecnobrega de Belém, funk carioca, arrocha na Bahia.
E dos fenômenos de massa que mudam a direção dos ventos da informação entre regiões e classes do Brasil: axé, sertanejo e pagode. E suas relações com a massa crítica da produção sofisticada e da crítica ambiciosa.

CULTURA E DIVERSIDADE (MARIA RITA)

Nos anos 70, aqui no Brasil, período em que fui jornalista, como a indústria era muito cara, e gravar um disco era uma coisa cara, chegamos a imaginar que só iria haver um tipo de rock, de samba, nada mais, iria acabar a diversidade. A coisa de poder divulgar a música pela internet, mesmo o CD, que já é tecnologia mais simples, permitiu o contrário. No Brasil, começou a aparecer música de tudo quanto é lado. Estou pensando nos meninos do Cordel do Fogo Encantado. Se eles dependessem da indústria cara, como era até os anos 70 e 80, não estavam tocando, eu não conheceria. Há questão tecnológica que favorece essa menor dependência do artista na música do grande mercado. Agora, o cinema é mais complicado, é uma indústria ainda cara.

MERCADO E PIRATARIA (CACÁ)

Não sou muito contra a pirataria, não. A pirataria no cinema não é questão policial, mas social. O cara quer consumir aquele produto e não tem poder aquisitivo. Então ele vai e compra pirata. Um amigo meu, o cineasta Sílvio Tendler, foi ao Vietnã fazer um documentário e voltou com um presente. Ele comprou um DVD pirata de "Tieta". Fiquei felicíssimo, imagina um vietnamita vendo "Tieta". A gente não pode botar polícia na rua para enfrentar isso, impedir que o mundo avance. Vejo um cenário possível para o cinema: com a digitalização, os filmes vão ser exibidos através de linha telefônica. Não tem cópia, certos gastos com mão-de-obra etc. Vai ser tão barato que pode ser que o filme passe a ser coisa de graça para vender o resto em volta. Para vender o comercial da sala de cinema, a camiseta, a pipoca mais cara do mundo, a Coca-Cola mais cara do mundo etc.

A INVENÇÃO DO INTELECTUAL (CACÁ)

O intelectual é basicamente uma invenção do final do século 19, que se torna uma coisa importante nas sociedades ocidentais a partir do século 20.
Ele sempre esteve misturado à política e nunca vai deixar de estar. É na segunda metade do século 20 que aparece, nas sociedades ocidentais, o intelectual orgânico, que é uma novidade e submete sua visão de mundo, sua visão do ofício que ele pratica ao programa político e doutrinário de determinado partido ou grupo político.
Quando isso aconteceu na ditadura brasileira, foi muito bem-vindo, porque, numa ditadura, todo mundo é contra. O perigoso é a democracia, porque aí cada um tem de pensar por si mesmo. Aí começaram a surgir as dúvidas sobre a relação entre cultura e política. De certo modo, o intelectual virou servidor público, a serviço de determinada causa, idéia ou partido.

CAETANO X ROBERTO SCHWARZ

Não consigo ver sentido nas escolhas do [crítico] Roberto Schwarz [em entrevista à Folha em 2007]: Chico Alvim, "Subúrbio" [de Chico Buarque] e "Cronicamente Inviável" [de Sérgio Bianchi]. Detesto "Cronicamente Inviável", acho o filme uma porcaria, um abacaxi de caroço. A música de Chico é bonita, mas não é uma canção que criticamente possa ser um exemplo [positivo]. Não sinto uma verdadeira realidade de curtição artística nessas escolhas do Schwarz.

QUALIDADE NÃO TEM JUIZ (GULLAR)

Não tem juiz para dizer [o que tem qualidade ou não], mas existe uma experiência acumulada que permite que o Caetano, o Gil, o Chico saibam o que é qualidade. Agora, existe gosto por uma outra música, que não tem a mesma qualidade, e que vende. Vai dizer que o Paulo Coelho não é escritor? É sim. É mais do que aquele cirurgião plástico [Ivo Pitanguy] que está na Academia Brasileira de Letras. [A idéia de que todo mundo é igual] nasceu com o marxismo. Mas as pessoas não são iguais. Elas são iguais em direitos, mas não em qualidade. As pessoas são diferentes e o mundo é mutirão. Porque o Oscar Niemeyer desenha o edifício dele, mas sem o pedreiro, vai ficar no papel.
 



Caetano afirma que hoje se sente mais próximo de Gullar

DAYANNE MIKEVIS
PAULA CARVALHO
da Folha Online

8/12/2008

Caetano Veloso afirmou que agora se sente mais próximo da posições políticas do escritor Ferreira Gullar do que anos 60 e 70.

Durante debate organizado em comemoração aos 50 anos da Ilustrada, Caetano afirmou: "Eu hoje me sinto mais próximo do pensamento de Gullar do que nos anos 60 e 70".



Além de Caetano e Gullar, participam do debate a psicanalista Maria Rita Kehl e o cineasta Cacá Diegues --Fernando Barros e Silva, editor do caderno Brasil, atua como mediador do evento.
 

"Eu me sinto um liberal inglês às vezes", afirmou Caetano.

Já em relação a Diegues, Caetano afirmou que sempre sentiu mais próximo. "Eu sinto o Cacá muito próximo, aliás sempre me senti próximo do pessoal do cinema novo."



Luta armada


Tanto Caetano quanto Diegues mostraram-se contrários à luta armada empreendida durante a ditadura militar.

O cantor considerou que se a guerrilha tivesse vingado, sua política não teria dado certo, enquanto o cineasta considerou que os heróis que morrem por um ideal podem estar errados.

Para Diegues, o artista precisa se questionar o tempo inteiro e estar atento ao momento em que vive. "É por isso que os meus filmes são muito diferentes uns dos outros. Quero ser um cineasta do presente. Coerência é o álibi de quem não tem imaginação".

O diretor disse que Caetano era um exemplo do artista que vive questionando, o que "mexeu muito com o nosso pensamento".

Amanhã, o ciclo de debates prossegue no auditório do Masp. O tema será "Cultura e Consumo". As inscrições estão encerradas, mas a íntegra dos debates pode ser assistida na Folha Online, no dia seguinte ao evento.

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