lunes, 26 de marzo de 2012

1982 - AS VÁRIAS PONTAS DE UMA ESTRELA



"Caetano faz “declaração de amor” em letra que Milton não teve coragem de interpretar.
Perto de gravar o disco
Ănǐmǎ, em 1982, Milton telefonou para Caetano e propôs aquela que seria a segunda parceria da dupla. ‘Agora vai ser diferente. Você manda a letra e eu coloco a música depois’, avisou Milton.
Menos de um mês depois, Caetano entregou os versos de ‘As Várias Pontas de uma Estrela’.
Sem pestanejar, Milton virou-se para o amigo e perguntou: ‘Você está louco? Essa letra é uma declaração de amor. Como é que vou cantar isso a meu próprio respeito?’.
Caetano reforçou o elogio ao amigo: ‘Você é tudo isso e muito mais’.
Humilde, Milton chamou Caetano para cantar a parceria no disco.
‘Caetano chegou ao estúdio e não tinha ainda ouvido o arranjo. Ele começou a cantar e nos abraçamos. Meu contracanto foi nascendo na hora’, diz Milton." (Revista ISTO É,
17/10/2005)





Música: Milton Nascimento
Letra: Caetano Veloso
© 1982 Ed. Três Pontas – Gapa/Saturno

Estrela de cinco pontas
Cinco estrelas no Cruzeiro
Trilhões de estrelas no céu
Três pontas, mil corações

E um menino brasileiro
Com seus olhos, duas contas
Atravessa o imenso véu
De brilhos e escuridões

Que Deus segue esse menino
Que deuses o seguirão
Meu verso de sete patas
Notas desta melodia

Quem me ensina essa lição?
Quem me explica esse destino
Que grito dentro das matas
Agora responderia

Não sei, mas ando com ele
Às vezes voamos juntos
Pedras super preciosas
Aves nas alturas tontas

Tocamos vários assuntos
Às vezes roço-lhe a pele
E somos estrelas rosas
Tres, quatro, cinco mil pontas




1982 - MILTON NASCIMENTO
Participación Especial: CAETANO VELOSO
61.828.980 / 3:27
Álbum “Ănǐmǎ
Ariola LP 201.909, B-1.


 
2011 – CLÁUDIA
Álbum “Senhor do Tempo - Canções Raras de Caetano Veloso”
Jóia Moderna/Tratore CD 0005, Track 6.

2011 - MIAMI MACULELÊ


Letra y música: Caetano Veloso

Mas por quê
Mas por quê
Por que eu fui meter você
No meu som
No meu bom


Miami Maculelê
Miami Maculelê
Miami Maculelê

São Dimas
Robin Hood
E o Anjo 45
Todos dançando comigo

(Era música de dance
Era o bonde do prazer
Sacanagem sem romance
Por que eu fui meter você?

Era dança de alegria
Putaria e coisa e tal
Por que você vem com santo,
Anjo e galera do mal?

Você encheu minha vida
De ternura e sentimento
Vou virar trabalhador
Vou deixar o movimento

E se alguém me perguntar
O que foi que aconteceu
Eu responderei então:
"Na verdade o malandro sou eu")




2011 - GAL COSTA
BR-UM7-11-01155
Álbum “Recanto”
Universal Music CD 602527724133, Track 10.





2013 – GAL COSTA
Álbum “Recanto ao vivo”
Gravação ao vivo no Theatro Net Rio, em 8 e 9 de outubro de 2012 (RJ)
Universal Music 2 CD’s 602537269143, CD 2, Track 8. | DVD 602537269112, Track 19.

2011 - SEGUNDA


Letra y música: Caetano Veloso

Segunda é dia de branco
Vou arrastar meu tamanco
Quem não tem dinheiro em banco
Madruga e Deus não ajuda

Sexta-feira eu dou o arranco
No sábado aguento o tranco
Chega no domingo estanco
Na segunda tudo muda
Digo isso com alegria
Não vejo o nascer do dia
Mas pela Virgem Maria
Tenho dinheiro e patrão

Eu mesmo sou mei galego
O meu chefe no emprego
É que é mulato pra nego:
Só ecos da escravidão
Se conhece pela bunda
Pela tristeza profunda
Mas é só dele a segunda
Eu foi que herdei a senzala

Mas agora a minha sala
Tem geladeira de gala
À dele quase se iguala
Muda o mundo em barafunda
Vou arrastar meu tamanco
Que amanhã volto à peleja
Quem não me mata me beija
Mas ninguém morre de inveja

Essa é a última cerveja
Bendigo que vai à igreja
Quem não vai, louvado seja
Segunda é dia de branco



2011 – GAL COSTA
BR-UM7-11-01159 / 3:48
Álbum “Recanto”
Universal Music CD 602527724133, Track 11.

Violão, cello, prato e faca: MORENO VELOSO



2013 – GAL COSTA
Álbum “Recanto ao vivo”
Gravação ao vivo no Theatro Net Rio, em 8 e 9 de outubro de 2012 (RJ)
Universal Music 2 CD’s 602537269143, CD 1, Track 7. | DVD 602537269112, Track 7.

2011 - NEGUINHO

Letra y música: Caetano Veloso

Neguinho não lê, neguinho não vê, não crê, pra quê?
Neguinho nem quer saber
O que afinal define a vida de neguinho
Neguinho compra o jornal, neguinho fura o sinal
Nem bem nem mal, prazer
Votou, chorou, gozou: o que importa, neguinho?

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei: neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho

Se o nego acha que é difícil, fácil, tocar bem esse país
Só pensa em se dar bem – neguinho também se acha
Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro GPS e acha que é feliz
Neguinho também só quer saber de filme em shopping

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei: neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho

Se o mar do Rio tá gelado
Só se vê neguinho entrar e sair correndo azul
Já na Bahia nego fica den’dum útero
Neguinho vai pra Europa, States, Disney e volta cheio de si
Neguinho cata lixo no Jardim Gramacho
Neguinho quer justiça e harmonia para se possível todo mundo
Mas a neurose de neguinho vem e estraga tudo
Nego abre banco, igreja, sauna, escola
Nego abre os braços e a voz
Talvez seja sua vez:
Neguinho que eu falo é nós

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei: neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho





2011 - GAL COSTA
BR-UM7-11-01157 / 5:31
Álbum “Recanto”
Universal Music CD 602527724133, Track 05.

Bajo: Kassin
Guitarra: Pedro Sá
Programación y sintetizadores: Zeca Veloso





2013 – GAL COSTA
Álbum “Recanto ao vivo”
Gravação ao vivo no Theatro Net Rio, em 8 e 9 de outubro de 2012 (RJ)
Universal Music 2 CD’s 602537269143, CD 2, Track 3. | DVD 602537269112, Track 14.

2011 - TUDO DÓI



"Ela sintetiza de uma forma totalmente diferente o disco e a bossa nova. Ela tem a estranheza, a irreverência, a beleza, a sonoridade... não sei explicar, tudo nela tem um componente 'joãogilbertiano', que para mim é uma coisa maravilhosa", disse Gal em entrevista.


Letra y música: Caetano Veloso

Tudo dói
Tudo dói
Tudo dói

Viver é um desastre que sucede a alguns
Nada temos sobre os não nenhuns
Que nunca viriam

As cascas das árvores crescem no escuro
As cascatas a 24 fotogramas por segundo
Os vocábulos iridescem
Os hipotálamos minguam
Tudo é singular

Dói

Tudo dói




2011 - GAL COSTA
BR-UM7-11-01151 / 2:39
Álbum “Recanto”
Universal Music CD 602527724133, Track 04.

Guitarra: Caetano Veloso
Batería electrónica, sintetizador y programación: Kassin
Rhodes: Alberto Continentino


2013 – GAL COSTA
Álbum “Recanto ao vivo”
Gravação ao vivo no Theatro Net Rio, em 8 e 9 de outubro de 2012 (RJ)
Universal Music 2 CD’s 602537269143, CD 1, Track 2. | DVD 602537269112, Track 2.

martes, 13 de marzo de 2012

1970 - BABY / PRESTO PRESTO SCUSA SCUSA


En 1970, el actor italiano de origen cubano Tomas Milian (Tomás Quintín Rodríguez Milian, La Habana, 1932) decidió invertir en carrera como cantante y eligió Baby, en versión italiana de Luciano Rossi.

Los arreglos y dirección de la Orquesta son de Stelvio Cipriani (compositor de la música de la película Anónimo Veneciano -1970- de Enrico Maria Salerno).



1970 - TOMAS MILIAN
[presto presto scusa scusa – Versión en italiano: Luciano Rossi – Arreglo: Stelvio Cipriani]
Álbum “Presto presto scusa scusa”/“[What is love] Un libro... una storia”
Discografica Editrice Tirrena (DET) S 7” (45 rpm) nº DTP 54-A [Italia]


domingo, 4 de marzo de 2012

2011 - CARA DO MUNDO


Letra y música: Caetano Veloso

Cara do mundo, cara de peixe-boi
Cara de tudo, cara do que já foi
Pássaro azul, deserto-jardim, presunto
Músculo nu num filme ruim, soluço
Cara de cobra, cara de beija-flor
Cara de cara, cara do meu amor

Cara do mundo, vim te reconhecer
Cara de muito, dor de tanto prazer
Abro meus olhos, abro meus braços, longe
Fecho meu punho, fecho meu coração
Cara de tempo, cara de escuridão
Asa do vento, olho de sol, clarão

Cara do mundo, máscara de carvão
Máscara clara, rosto de multidão
Gozo em te ver tão cara a cara assim
Posso meter máscara clara em mim
Cara do mundo, hálito de maçã
Cor de abacate, amargor de alumã






2011 - GAL COSTA
BR-UM7-11-01152 / 2:50
Álbum “Recanto”
Universal Music CD 602527724133, Track 2.




2013 – GAL COSTA
Álbum “Recanto ao vivo”
Gravação ao vivo no Theatro Net Rio, em 8 e 9 de outubro de 2012 (RJ)
Universal Music 2 CD’s 602537269143, CD 1, Track 11. | DVD 602537269112, Track 11.

2011 - RECANTO ESCURO


“Recanto escuro”, que é uma biografia cifrada da própria Gal (mas tem elementos de minha própria biografia), foi composta primeiro sem palavras. Eu queria que estas confirmassem o clima que poderíamos obter com as programações. (Caetano Veloso)

“O chão da prisão militar” ela não viu, mas está nela. Quando eu e Gil fomos exilados, ela fez a coisa mais forte de inserção dela na música brasileira, o “Fa-tal”. Há outras referências. Quando a conheci, ela passava uma sensação de solidão. E Salvador tem uma luminosidade brilhante. Por isso “O sol, luz perpendicular/ Do outro lado azul do muro/ Não vou saltar”. Ouvíamos jazz no bar Bazarte, e isso está na letra (“Cool jazz me faz feliz e só”). (Caetano Veloso)



Letra y música: Caetano Veloso

Eu venho de um recanto escuro
O sol, luz perpendicular
Do outro lado azul do muro
Não vou saltar

Eu chego às portas da cidade
E nada procuro fazer
Espero, nem feliz nem gaia
Acontecer

Não salto mas sou carregada
Por asas que a gente não tem
A luz não me fulmina os olhos
Nem vejo bem

Em breve só saio de noite
A lua não me rasga o peito
Cool jazz me faz feliz e só
Não tenho jeito

O álcool só me faz chorar
Convidam-me a mudar o mundo
É fácil: nem tem que pensar
Nem ver o fundo

O chão da prisão militar
Meu coração um fogareiro
Foi só fazer pose e cantar
Presa ao dinheiro

Mas é sempre o recanto escuro
Só Deus sabe o duro que eu dei
Mulher, aos prazeres, futuro
Eu me guardei

Coisas sagradas permanecem
Nem o Demo as pode abalar
Espírito é o que enfim resulta
De corpo, alma, feitos: cantar



2011 - GAL COSTA
BR-UM7-11-01150 / 3:48
Álbum “Recanto”
Universal Music CD 602527724133, Track 1.




2013 – GAL COSTA
Álbum “Recanto ao vivo”
Gravação ao vivo no Theatro Net Rio, em 8 e 9 de outubro de 2012 (RJ)
Universal Music 2 CD’s 602537269143, CD 1, Track 3. | DVD 602537269112, Track 3.







 

 
2017 – CIDA MOREIRA 
Álbum “Soledade solo”
Gravado ao vivo em 2016 na Casa de Francisca, na cidade de São Paulo (SP) 
Joia Moderna CD 789998990635-8, Track 4.
 

sábado, 3 de marzo de 2012

2011 - O MENINO


" ... Compus “O menino” em minha casa da Bahia, na presença de meus dois filhos menores. Tom e Zeca riam dos primeiros esboços cantados ao violão, sem letra, pois achavam que parecia tema do videogame Zelda. Na verdade, eu estava pensando no Rabotnik. As palavras da letra surgiram quando pensei no filho de Gal, Gabriel, e em como ele traz alegria a ela. Mas logo a imagem do surgimento de uma criança me trouxe Hanna Arendt dizendo que o maior acontecimento da história da humanidade foi o nascimento de Cristo, Jorge Mautner dizendo “uma criança nasceu entre nós” e “Jesus de Nazaré inaugurou a ideia de direitos humanos”, e, finalmente, a fé cristã dos meus filhos que estavam sentados ali comigo. Não tenho fé religiosa, mas tenho sido levado a pensar muito nesse tema do cristianismo como núcleo da modernidade..." (C.V., Noviembre 2011)


Letra y música: Caetano Veloso

Nuvens de tormenta, estrela-d'alva
Nunca venta, sempre lacre e breu
Nasce uma criança entre nós homens
O menino aguenta
O menino salva
O menino é eu
O menino sou eu

Nada vale, não, não vale nada
Tudo desde sempre se perdeu
Lágrimas no vale caem, somem
O menino nada
O menino homem
O menino é eu
O menino sou eu

Sangue escuro no meu coração
Noite sobre a terra e sobre o mar
Eis porém que vem essa criança
Eis a estrela-d'alva!

O menino salva as madrugadas
Nada contra a força da maré
Viro para o céu e olho na cara
O menino aguenta
O menino d'alva
O menino sou eu
O menino é




2011 – GAL COSTA
BR-UM7-11-01154
Álbum “Recanto”
Universal Music CD 602527724133, Track 6.

Banda RABOTNIK
[Estevão Casé/Eduardo Manso/Bruno di Lullo/Rafael Rocha]


2011 - RECANTO


"Caetano é quem melhor compõe pra mim e quem melhor me entende"
(Gal Costa, O Estado de S.Paulo, 2010)





Lanzado el 6 de diciembre de 2011, álbum de Gal Costa con la producción de Caetano y Moreno Veloso.


2011
GAL COSTA
Álbum “Recanto”
Universal Music CD 602527724133.

1. RECANTO ESCURO (Caetano Veloso)
2. CARA DO MUNDO (Caetano Veloso)
3. AUTOTUNE AUTOERÓTICO (Caetano Veloso)
4. TUDO DÓI (Caetano Veloso)
5. NEGUINHO (Caetano Veloso)
6. O MENINO (Caetano Veloso)
7. MADRE DEUS (Caetano Veloso)
8. MANSIDÃO (Caetano Veloso)
9. SEXO E DINHEIRO (Caetano Veloso)
10. MIAMI MACULELÊ (Caetano Veloso)
11. SEGUNDA (Caetano Veloso)




Recanto
Caetano Veloso
11/2011

Quando voltei do exílio londrino, me apresentava usando batom vermelho. Meu cabelo descia até os ombros e era repartido no meio. Um retrato vivo de Gal, pensado como uma homenagem a ela ter encarnado os tropicalistas expatriados durante aqueles anos.

Rimbaud: “J´est un autre” – “eu é um outro”.
Anônimo favelado carioca: “é nós”.

O disco é meu trabalho composicional de agora. Quis fazê-lo com o som da voz dela. Não se tratava de meramente relembrar o passado de Gal, mas de produzir com ela uma peça que fosse forte como expressão atual e, assim, estivesse à altura do nosso histórico. Sonhei com isso por um bom tempo. É que tudo o que conto em “Verdade Tropical” (do reitor Edgard Santos à axé music, passando pela Banda Tropicalista de Rogério Duprat) ficaria sem substância se a voz de Gal não soasse agora em contexto contundente. Finalmente comecei a compor e a imaginar arranjos e sonoridades.

Chamei Moreno, que é afilhado dela e um mago no comando de um estúdio, e ele logo me disse que Kassin era o indicado para tratar os temas que eu ia lhe mostrando. Por isso Kassin tem o maior número de faixas sob sua responsabilidade de programador/arranjador. Mas há toda uma turma de músicos do Rio que fiz questão de convidar para combinar seus sons com a voz de Gal. Desde sempre pensei que o Rabotnik teria que estar numa faixa. E Bartolo, um dos componentes do Duplexx (o outro é Leo Ribeiro), tinha sido, junto com Kassin, um dos primeiros nomes em que Moreno e eu pensamos. Meu outro filho, Zeca, que gosta de música eletrônica e já tem até se apresentado como DJ, estava fazendo, em casa, um remix para uma música francesa. Ao ouvir uma base que ele inventara para substituir a original, percebi que algo como aquilo deveria estar no disco. Zeca riu e disse que poderia partir do que eu ouvira e tentar fazer algo realmente aproveitável. Cobrei depois e ele me veio com a base do que se tornou “Neguinho”. Tanto eu quanto Kassin achávamos satisfatório o que ele tinha feito no Live (um programa de música eletrônica), mas ele queria um som mais rico e pediu a Kassin e a Pedro Sá para adicionarem baixo e guitarra.

Comecei por mostrar a Kassin “Tudo dói”, no violão. E logo “Recanto escuro” e “Cara do mundo”. Kassin, que é uma personalidade fascinante pois parece refratário a sustos mas na verdade é demasiado sensível, ficou surpreendentemente (para mim, que me assusto à toa) animado com os temas. E desde o começo eu vi que não haveria ruído no diálogo. Tudo fluiu muito rápido (o tempo que tomamos foi para fazer tudo com naturalidade, interrompendo para cumprir nossas agendas apertadas e voltando a pôr a mão na massa quando estivéssemos relaxados). Kassin é assim. Parece não se surpreender mas surpreende muito com seu jeito sonso. Tivemos conversas em que demonstrei meu fascínio pelos dribles rítmicos do hip hop. Em “Recanto escuro” ele criou “ilusões auditivas” que têm o mesmo efeito que as levadas equívocas do rap mais inventivo. E ainda citou uma repetição do baixo do meu violão a que eu tinha sido obrigado pela necessidade de passar a página com a letra ao gravar no GarageBand. Depois, encontrando Luís Felipe de Lima no estúdio, extraiu dele essas intervenções de violão de sete cordas que, ao mesmo tempo, rasgam nosso coração e o consolam. Depois pediu a Donatinho e a Pedro Sá que somassem comentários. Moreno e eu editamos o material. A voz de Gal que ficou na versão definitiva dessa faixa é a voz-guia que ela gravou, de cara, apenas para Kassin poder continuar trabalhando.

As gravações provisórias da voz dela foram todas feitas por Moreno em Salvador. Essa de “Recanto escuro” nunca foi refeita. As outras, gravamos depois no estúdio Ilha dos Sapos, no Candeal. Estivemos sempre ali só Moreno, Gal e eu. Nem mesmo um assistente de estúdio para pegar um cabo ou desligar o ar condicionado. Fui para a Bahia e lá dei de cara com esse método de Moreno. Parecia, dentro do Ilha dos Sapos, que nós 3 não tínhamos compromisso com o mundo lá fora. Não sentíamos nem mesmo a responsabilidade profissional como uma coisa real. Foi muito estranho. Muito bom, sem parecer que era bom.

Compus “O menino” em minha casa da Bahia, na presença de meus dois filhos menores. Tom e Zeca riam dos primeiros esboços cantados ao violão, sem letra, pois achavam que parecia tema do videogame Zelda. Na verdade, eu estava pensando no Rabotnik. As palavras da letra surgiram quando pensei no filho de Gal, Gabriel, e em como ele traz alegria a ela. Mas logo a imagem do surgimento de uma criança me trouxe Hanna Arendt dizendo que o maior acontecimento da história da humanidade foi o nascimento de Cristo, Jorge Mautner dizendo “uma criança nasceu entre nós” e “Jesus de Nazaré inaugurou a ideia de direitos humanos”, e, finalmente, a fé cristã dos meus filhos que estavam sentados ali comigo. Não tenho fé religiosa, mas tenho sido levado a pensar muito nesse tema do cristianismo como núcleo da modernidade.

As letras desse disco são ao mesmo tempo muito diretas e um tanto enigmáticas. Não pude evitar. Atribuo ao fato de eu ter pensado nos sons eletrônicos envolvendo a voz de Gal. “Recanto escuro”, que é uma biografia cifrada da própria Gal (mas tem elementos de minha própria biografia), foi composta primeiro sem palavras. Eu queria que estas confirmassem o clima que poderíamos obter com as programações. Mesmo “Sexo e dinheiro”, que tem parentesco com as canções de reflexão de Gil, parece ir desfazendo o raciocínio inicial – mas sempre esbarra em frases cruas, diretas. Todas as letras me surpreenderam à medida que foram se construindo. O crítico Tarik de Souza tinha me perguntado se eu não pensava em fazer algo com música eletrônica. Respondi que não, ressalvando que seria lógico que eu quisesse pois é como pintar Ao imaginar um disco para Gal me vi começando a fazer o que Tárik profetizou em forma de pergunta.

“Miami Maculelê” é uma observação sobre o funk carioca ter começado pelo Miami bass e chegado ao maculelê de Santo Amaro via umbanda. Kassin, Moreno e eu pensamos em unir diretamente o maculelê às produções do DJ Marlboro. De fato, Moreno gravou com o grupo autêntico de Santo Amaro. Mas Marlboro, embora tenha dito que faria as programações, nos deixou na mão (talvez sentindo que isso podia ser uma usurpação, por parte de uma turminha da MPB, da vitalidade do funk do Rio – no que ele não estaria de todo errado). Kassin terminou fazendo toda a programação e, comigo e Moreno, editando-a sobre a base santamarense. (Edu Krieger me falou, faz algum tempo, de um projeto seu de fazer trabalhos harmonicamente complexos sobre ritmo de funk carioca. Eu lhe disse que tinha um lance semelhante para o disco de Gal, embora não se tratasse de harmonias complexas. Ele me mostrou algo do que estava fazendo. Espero que ele torne público seu experimento pelo menos ao mesmo tempo em que exponho o nosso. São coisas diferentes, mas devo registrar a relativa coincidência de intenções). Gosto imensamente da letra (os bandidos santos e a lembrança de Paulinho da Viola dando a volta por cima).

Escrevi “Autotune autoerótico” pensando em usar a ferramenta do título sobre a voz de Gal. Cheguei a fazer isso com Igor. Mas é tão natural todo o trabalho vocal do disco que essa estranha balada soava falsa com a voz de Gal assim trabalhada. Só usamos o efeito nas partes improvisadas sem letra. E deixamos o papel de afinador duro do Autotune exclusivamente para “Miami maculelê”, onde o ambiente do funk acolhe bem a voz entoada artificialmente. No mais, deixamos Gal soar como ela soa. E aqui particularmente sóbria. Basta-lhe o timbre e o relaxamento. Sem intenções interpretativas óbvias e sem demonstrações de capacidade musical. Quanto mais simples, mais simplesmente Gal, maior a integração com os sons às vezes ásperos, às vezes etéreos da eletrônica. A faixa que ia dar nome ao CD, “Segunda”, não tem sons eletrônicos: só um bordão de violão, um cello dobrado e um prato – todos tocados por Moreno. E não soa incoerente com o resto.

As únicas canções não inéditas são “Madre Deus” e “Mansidão”. A primeira foi feita para o bale “Onqotô”, do grupo Corpo, onde ela aparece gravada por Ze Miguel Wisnik. A segunda foi escrita para Jane Duboc, que a gravou já faz anos. Foi tudo um sonho meu. Mas ouvir o que a turma que reuni aprontou para Gal, sobretudo tendo dois dos meus filhos envolvidos, me faz sentir que me aproximei mais do que entendi sobre nosso grupo núcleo, Gil, Bethânia, Gal e eu, desde que começamos à beira da Bahia de Todos os Santos.

Caetano Veloso
Novembro 2011




Gilda Midani, Caetano e Gal


Las palabras de recanto gal